Sábado, Fevereiro 26, 2011

O senhor Primeiro Ministro de Portugal - FRAGMENTOS LITERÁRIOS - 3

O senhor Mário de Oliveira, reformado da Função Publica, colocou o polegar sobre o Censor de Identificação Digital e aguardou pela confirmação do sistema. Dois segundos depois surgiu o seu número 18 328 514 de votante democrático da Republica Unida do Estado Semanal Português. Apareceram no visor alguns dados pessoais do seu utilizador e, pressionando o botão de “Seguinte”, entrou nas possíveis escolhas de votação. Passou os olhos por elas rapidamente e, com um ar inexpressivo por falta de um adjectivo que lhe correspondesse, seleccionou e confirmou a opção de “Decapitação Publica”.

O senhor Primeiro Ministro de Portugal olhou do seu lugar o ecrã das estatísticas do país que marcavam o seu destino para a próxima semana eleitoral. No gráfico de barras a opção de “Decapitação Publica” aparecia com uma votação de 85 em cem, seguida de “Castração” com os restantes 15% de votação. “Cortar dedo da mão”, “Oposição” e “Mais 1 Mandato” permaneciam nos 0%. Um enorme palavrão trovejou da boca do Primeiro Ministro que de imediato saltou da cadeira para reflectir na situação Nacional. Mas que maldade teria ele feito ao povo português durante esta semana? Lembrou-se que tinha visitado um lar de idosos para presos por violação e assassínio. Até chegou a dar de comer a uma velhinha de ascendência tibetana que lhe contou ter matado o marido com agulhas de acupunctura enquanto ele dormia enrolado numa estátua do Buda. Ciúmes, tinha ele concluído com um sorriso. Os repórteres estavam lá; gravaram tudo: as palavras de consolo e de promessas para a próxima semana eleitoral, os gestos afectados de quem nem sequer pode controlar e decidir o seu destino – afinal o povo português é exigente e difícil de se governar por qualquer um.
Ou quem sabe se não teria sido o seu discurso inflamado com o elemento do partido da oposição – afinal muita merda teve que ser dita para chamar os portugueses à razão - e talvez ele tenha ferido muitas sensibilidades acomodadas nos sofás. Lembrou-se que tinha defendido a posição de, logo no primeiro ano, meter na cabeça dos futuros cidadãos, o estudo intensivo de calculo numérico e de pelo menos duas línguas estrangeiras, com complementos de saúde humana, em particular a sexual. O seu opositor político refutou-lhe essa necessidade expressando a falta de tempo que isso iria originar nas criancinhas; que os pais começariam a sentir as suas ausências por mais de 4 horas fora de casa, e sobre os problemas psicológicos que poderiam afecta-las com estudos tão exagerados para uma idade tão precoce. O que no final exigiria uma total reformulação do ensino nas escolas e que para o espaço de mais uma semana presidencial seria um trabalho forçado para muitas directas.


O seu olhar voou para o relógio digital sobre a mesa, que marcava, em contagem decrescente, o final de mais um mandato eleitoral. E pelas quatro horas que faltavam para o bloqueio das urnas, parecia que aquele mandato, iria ser realmente, o seu laminar fim. Ficou a imaginar o seu substituto, o novo paspalhão que lhe iria ocupar o lugar. Afinal de contas qualquer um podia assumir o cargo de Primeiro Ministro, pois quem realmente estava sempre a mandar eram os dois únicos partidos políticos, e o cabecilha de cada um deles apenas um bobo da corte para a opinião eleitoral.
A política nacional tinha sido finalmente elevada ao estatuto de actividade pública de entretenimento das massas.

00:06... 00:05... 00:04...

00:03... 00:02... 00:01...


00:01... 00:01... 00:01... Sobre a retina do Primeiro Ministro os mesmos números gravavam-se e pareciam não querer mudar. O seu cérebro não conseguia ver mais o que se seguia. O tempo já não era aquele que o relógio marcava. Durante aquele teimoso segundo a sua percepção da realidade desvelou-se e apercebia-se que não poderia voltar atrás. A sala à volta do seu campo visual começou a ficar desfocada como que atingido por um glaucoma repentino e algumas lágrimas lacrimejaram-lhe pela face.
Da porta irromperam dois toques violentos de aviso seguidos por um homem vestido à pinguim com uma gravata amarela-dourada.
- Senhor Primeiro Ministro, o tempo urge. Estamos à sua espera para a conclusão de mais um mandato. Os cidadãos já decidiram. Temos que partir.
O Primeiro arrastou-se da cadeira com a visão deturpada em lágrimas que não conseguia explicar, e passando junto do seu interlocutor foi saudado com uma palmadinha nas costas cuja a palma da mão o acariciou até à linha da cintura.
Lá fora, junto ao portão, nas traseiras do palácio de São Bento, um carro demasiado vulgar movido a hidrocarbonetos esperava de motor ronronante como um gatinho que se afagasse carinhosamente.
O Primeiro Ministro atravessou o passeio de pedra envolto por relvado seguido do homem vestido de pinguim. A porta do Opel foi-lhe aberta e virando a cabeça para a grande casa parlamentar num definitivo adeus os seus olhos foram encontrar a galhardeada bandeira portuguesa que repousava encolhida ao sabor da ausência do vento. Enxugando um dos olhos meteu-se no interior do veiculo e alguém voltou a fechar-lhe a porta.

4 de Dezembro de 2004

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2011

FRAGMENTOS LITERÁRIOS - 2

Uma conversa com o Todo Poderoso

Esta entrevista teve lugar num local não especificado, num tempo não determinado, pois afinal estamos a falar com o Deus.

- Omnipotente Deus, agradeço desde já a sua disponibilidade divina. Então começaria por Lhe perguntar qual é a visão que tem do mundo?
- Por favor trate-me só por Deus. Omnipotente é uma palavra muito forte. Pois o sentido humano que ela têm não é o mesmo que o sentido celeste que nós aqui lhe damos. Mas respondendo à sua pergunta directamente: a minha visão do mundo é total. Vejo tudo e todos. Nada me escapa.
- Uma questão muito discutida entre nós humanos é a da sua existência. Podia esclarecer-nos um pouco e tentar explicar aos leitores se você, Deus, existe realmente?
- Essa sua pergunta é realmente muito pertinente. Penso que é a primeira vez que me é dirigida directamente. Ora bem, como é que Eu, Deus, posso afirmar a minha própria existência, ou não existência, de forma a que você, e os seus leitores, fiquem convencidos? Está a pôr-me numa posição muito delicada. Então é assim: para aqueles que crêem na minha existência, Eu existo. Para os que não crêem, Eu simplesmente não existe. Não creio que exista outra forma de por as coisas. Realmente ambas as respostas estão correctas, pelo menos para vocês humanos. É claro.

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2011

Escrever ou Nao Escrever - FRAGMENTOS LITERARIOS - 1

O meu grito de espanto, de admiração, de descoberta, por ter encontrado um autor já perdido, eu próprio.... AH.... 


E lá vai então a historia:
Andava eu a vasculhar no sarcófago do meu disco rígido quando começo a encontrar textos, pequenos textos perdidos, escritos num tempo em que também me sentia perdido, não é que hoje já nao me sinta perdido, ainda o sinto, mas aprendi melhor a viver com isso. Dizia eu, textos dispersos sobre temas vários, diabruras de quem queria aprender a escrever e muito pouco fez. E comecei a rele-los e a rir. E diverti-me. E a perguntar-me como alguma vez consegui escrever tais coisas. E visto esses textos já nao serem meus, ou melhor serem de um outro eu, que já lá vai, que já passou e que se foi perdendo lá atras no tempo, achei que estava na altura de tentar massacrar possíveis leitores, amigos, conhecidos, com esses textos, com aquelas pérolas baças da minha realidade ou da minha ignorância. Mundo digital, estes são os meus Fragmentos. Fragmentos, este é o mundo digital. Talvez alguém se consiga divertir com eles, como eu me diverti. E assim vai nascer o que vou chamar de Fragmentos Literários. Os meus fragmentos literários... Os fragmentos literários do Paulo Astro. ...AH...


FRAGMENTO LITERARIO - 1


Sabores

Há um sítio onde uma cortina de calor emanado das cozinhas se pode afastar com a mão ao passar pela porta. Há um sítio em que cada passo que se dá é saboreado pela liberdade de se caminhar para a mesa. Muitos entram anafando os estômagos vazios, muitos saem com as mãos a repousarem neles. Um corredor comprido e largo que dá acesso às cozinhas serve de pedestal para observar todas as cabeças embrenhadas em comer. Uns entram com pressa e saem mais devagar, outros entram com pressa e aceleram ainda mais ao sair. Eu entro como entro e saio como saio, saboreando os que saboreiam. Desfiles de tabuleiros, de talheres embrulhados, de comida quente alinhada escrupulosamente decorada. Os cheiros misturam-se, confundem-se, alimentam. Por detrás do balcão passeiam-se apressadas cozinheiras expeditas de taça numa mão, concha na outra, enchendo o apetite dos outros. Pelos rostos passeiam-se carrancas, sorrisos, riscos de cor, sombreados de rímel, bochechas coradas dos fogões ligados, testas franzidas de indecisas. Pratos muitos e gostos outros tantos. No centro do percurso tira-se o pão, seguido das saladas verdes, laranjas, brancas e nunca douradas. Nas doçuras que se seguem, sobremesas muito juntas e apertadas, a vontade é de a todas por a mão, não deixar nenhuma e regalar-me como um leão, e ao aproximar da caixa só resta o que beber, água cristalina ou encanada. Finalmente a ultima empregada recolhe o meu cartão, passa-o pela máquina, e tira o numero que o meu prato marca. “Obrigado”, por educação, por habito, pelos seus múltiplos significados ocultos nas emoções que despertam. Por que cai bem antes da digestão. E parto para o palco, de tabuleiro na mão, actor que vai comer, que escolhe cada passo de encontro ao chão. Olho à volta e escolho as caras, escolho uma mesa, escolho um lugar. Escolho mais uns passos, mais um piscar de olhos e uma direcção. E escolho caminhar. Chego. Pouso. Puxo. Sento-me. Na minha frente a comida e, de repente, sem a provar, já senti todo o seu sabor.

Paulo Astro.

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

Felizes os Infelizes que Escrevem

"Felizes os Infelizes que Escrevem."

É esta a unica ideia que me ocurreu ao fim de um ano e meio de ausencia do meu blog (ausencia da minha blogoesfera?) 

Atingi a minha felicidade soprema, o pináculo do que é ser feliz. E as pessoas felizes NÃO precisão de escrever. Escrever para quê? Se está tudo bem não tenho motivos nenhuns para expressar a minha felicidade. A felicidade é lamechas, é cobarde. Ninguem dá atenção a peÇoas felizes, pois elas não precisam de atenção. Elas já são os seus próprios centros de atenção. Atenção para elas mesmas.

Repararam na palavra peçoa? Aposto que repararam. Posso sorrir pelo facto de me chamarem ignorante? Posso rir enquanto penso no vosso absurdo de eu ter transgredido uma norma ortográfica? Pois estou mesmo a rir-me... de si o leitor... :-)) Obrigado por Ler.

Mas só os infelizes é que podem escrever. Só os infelizes é que podem escrever BEM. Só a ira, a raiva, a insatisfação, são sentimentos dignos de quem escreve. Só estes sentimentos podem alimentar linhas e linhas de palavras valiosas, provocantes, perfurantes, aguçadas e afiadas pela língua de quem possa estar lá no fundo, encharcado na merda da vida, nesse estrume que fertiliza a aura do escritor, onde as sementes da ira germinam em textos dignos de serem lidos. O escritor mergulha nesse estrume, esfregasse nessa amalgama, perfuma-se com essa imundice e cria... cria todas e tantas palavras. Cria tantas e outras todas palavras, só com o minério do seu lápis, com os músculos da sua mão e a insatisfação do seu cérebro.

Por que me tornei um feliz, um tó-tó com a barriga da felicidade pendurada ao peito, deixei de conseguir escrever. Deixei de achar piada a este acto de revolta, insatisfação que habita os seres com um cérebro demasiado grande, onde cabe todo o género de tolices. E nessas tolices cujo nome pode começar por Religião ou por Ciência ou qualquer Filosofia, escondemos a nossa Mesquinha Ignorância. Mesquinha, sovina Ignorância, pois ela é só nossa e tanto medo temos de a partilhar e de a admitir.

E então e, hoje, estou feliz? Acho que despertei a infelicidade que se escondia em mim...

Já mais, em tempo algum, quero voltar a ser feliz... NUNCA!

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Amor e Ponto Final

Ele há livros que nos tocam de alguma maneira, uma passagem, frases que nos ficam na memória e, este livro de contos rematou de forma exemplar. E para aumentar o interesse na sua leitura, o que recomendo,o autor é português. É o primeiro livro que leio dele e tou com pedalada para ler outros que encontre. Mas acontece que este é ainda o primeiro e único do autor, não se sabendo se veio para ficar se não.

Mas até lá deixo aqui o excerto que me perturbou, a ideia que me deixou com arrepios e de cujo valor de verdade me fiz crente. O sumo está no ultimo paragrafo, mas deixo parte do contexto do conto para vos situar na ideia do autor: pelo menos assim o espero, pois o conto é demasiado longo para o dactilografar para o PC.


Ponto Final

(...)

Tento entrar no modo de hibernação mas o sono não chega, ou aliás, o sono até chega mas a minha loucura de te ter em pensamento enquanto ele te tem em corpo é enorme. E mais louco fico quando me convidas para ir contigo para um sitio ermo, viver mais isolado do mundo contigo e tu a continuares nessa tua relação que desaprovo, por que sinto ciúmes e inveja, de eu não ser a pessoa de quem dormes junta. A amizade que deixamos crescer brotou raízes firmes e senti que podias precisar de mim, e eu, sem ninguém a quem sentir dar ajudar, pensei que seria bom seres tu. E foi. Mas nessa tua necessidade de companhia, não vou poder acompanhar-te mais. O meu limite é este, este que ninguém que me conhece me recomendava transpor, limite que quem não te conhecesse não compreenderia. Eu senti que me poderia doer, que por cada noite que não te vejo a embrulhares-te na tua cama o meu coração se sobressalta, esperneai e grita desiludido com a tua escolha. Mas foi a tua escolha, não a minha. A minha escolha sempre foste tu, a minha prioridade eras tu. Alimentava uma esperança vã de que me visses como eu te via. Desafiei o meu desejo psicológico de conforto e embarquei na nau que velejavas. Não me arrependo em nada, não nego o quanto te amo e o quanto queria que também me amasses, mas o teu amor não é o mesmo que o meu e sempre o soube. E sempre tive a esperança de estar errado.
Mas não estava!
E tive que deixar sentir na carne essa dor de apaixonado não correspondido, de deputado sem votos, de Romeu sem Julieta, para finalmente ver com toda a clareza o jogo que me aproximava de ti. De ver por que mantinha a esperança nas palavras doces que me dirigias quando te sentias melhor comigo do que com ele. Quando não querias estar com mais ninguém eu andava por perto, a farejar-te como um cão que fareja o dono quando está ferido e que o tenta consolar, quando te socorria do teu estado mórbido e te reanimava para a vida com gestos simples, coisas banais que tu eliminavas, trabalhar, comer, vestir, tomar banho e só dormias... e dormias... e nada dizias... e eu ali, a olhar para ti... a olhar por ti... na expectativa... e percebia.
Não posso mais... Não posso mais arrastar-me no oceano da tua indecisão por que a pessoa com quem te dás tem tanto medo de enfrentar a vida de frente como tu, tem medo de seguir os seus sonhos como tu, e parece tão incapaz, como tu. Chega... Não quero mais isso para mim. Já te descobri o suficiente. Tenho visto, ouvido, e sentido o suficiente para me descobrir a mim mesmo e o que não quero é continuar nesta farsa asquerosa que guardo nesta caixa de pandora a que chamam de coração. Tentei mostrar-te como o sexo não é importante para mim e, não é. Mas faz doer imenso quando se ama alguém. Desta forma de pensar não me posso libertar eu e, dói-me. E tu bem o viste e, descordas-te. Pois para ti se não há sexo não há relação... mas que merda de pensamento é esse?? Serei demasiado burro para a ver?? Para que quero eu o sexo sem o resto? Para isso vou ali para a casa de banho com uma revista debaixo do braço, ou um filme no portátil. Queixas-te e aceitas esse teu descontentamento? Talvez não sejamos tão diferentes quanto isso. Ou fui eu que me tornei mais como tu? Quem sabe...

O amante quer ser como a pessoa amada, quer ser a amada para amar o corpo que é dele. É isso que quero, amar-me a mim mesmo através de outro corpo, que não aquele que tenho, amar-me através do corpo de outra pessoa, quero ser o teu corpo quando me estás a amar. Quero sentir-te a amar o meu corpo e a minha pessoa, pois amar-me a mim mesmo é como o meu olho esquerdo a tentar dizer ao meu olho esquerdo para ver de que cor é que ele é... não consegue! E o único momento em que essa ilusão é possível é frente a um espelho. E como eu uso um espelho para o meu olho esquerdo ver qual a cor que ele tem, também eu te queria usar como ilusão da realidade, como espelho, para me mostrares através do teu corpo e amor por mim o quanto eu próprio me posso amar noutro corpo que não o meu. E será nessa busca por amor próprio que nos lançamos numa relação? Sexo ou masturbação? Onde está a diferença? Queremos ter um orgasmo com outra pessoa quando o podemos ter sem ela? E ao proporcionar à outra pessoa a mesma sensação vamos retribuir com a mesma ilusão de espelho que ela se convenceu que precisa? É isto a que chamamos de amor?

"Estórias de Amar" pag. 166, António Manuel de Brito.

Domingo, Novembro 02, 2008

Conhece-te a Ti Mesmo - por Krishnamurti

A tradução é minha, mas as palavras foram dele: Jiddu Krishnamurti. Agradeço a revisão do texto á Isabel, que me motivou a concluir a minha primeira tradução do K para o português.

Por J. Krishnamurti, tal como impresso na revista The Herald of Star no número de Maio de 1925.

Penso que não existe tema mais interessante ou mais prometedor, ou de forma alguma mais excitante, do que o estudo de nós mesmos. Aos 15 ou 16 anos, estamos submersos em nós mesmos. Não há nada que nos interesse tanto. Depois apaixonamo-nos por alguém; mas ainda assim estamos extasiados com nós próprios. Há, descobrimos, muito mais inteligência no estudo de nós mesmos, e muito pouco pensamento dedicado aos outros. E de bom grado damos a uma quiromante 15 rupias para ela nos contar tudo sobre nós. E sentimo-nos bastante confortáveis com o pensamento de que iremos ser grandes um dia – sem, aparentemente, ter que lutar por essa grandeza. Existe apenas um tema que nos atrai e esse somos nós mesmos. Discutimo-nos, e de uma forma aprobatória consideramos como nos comportar, de que modo desenvolvermo-nos, e por aí em diante.

Parece-me que se pensarmos inteiramente deste ponto de vista, deste ponto que unicamente nos interessa a nós, não entenderemos porque é que existimos, ou porque qualquer coisa neste mundo, de todo, existe. Claro que é verdade que primeiro temos de nos compreender a nós mesmos antes de querer descobrir seja o que for sobre a vida em geral. Filosofia, religião e outros temas não possuem real valor, real controlo sobre um indivíduo, ou apenas têm uma pequena influência, quando somente apontam como podemos escapar a certas coisas, como evitar o mal, e por ai fora. Mas aqueles de nós que são membros da Star, ou pertencem a tais organizações, deverão ter a ideia de um plano definido que está a desenvolver-se.

Estamos em posição de examinar as coisas que nos são mais valiosas – coisas que produzem em nós o desejo de evoluir. Em todos nós existe o desejo de descobrir por nós mesmos até onde podemos compreender quem somos e o que nos afecta. A pessoa comum está de longe mais interessada nela mesma do que em qualquer outra. Luxúria, conforto, felicidade, tudo tem que apoiar os seus fins. Quando tudo foi feito para a satisfazer então somente pensa nos outros. Quando eu tiver comido e dormido o suficiente, voltar-me-ei para pensar nos outros. Esta é a visão comum. Se tiveste amor em abundância, ou felicidade, és levado a pensar no outro.

Mas para alcançar essa felicidade, devemos descobrir até onde nos encaixamos num plano definido. Devemos estar cientes de que há um plano em que cada um de nós tem um papel a representar, e devemos possuir a determinação na qual agiremos, com a qual deveremos criar o ambiente no qual caberemos – ou não; e se estivermos dispostos a procurar com a atitude correcta deveremos ser capazes de descobrir até onde nos encaixaremos nesse plano. Para mim, posso imaginar que os deuses eleitos disseram que Krishna deverá encaixar-se num certo plano estabelecido, e que o quer que seja que ele faça, não terá valor, e enquanto encaixar nesse plano, Krishna crescerá e será feliz. Eu estava interessado e observava-me a mim mesmo, e podia ver de ano para ano uma mudança definida, uma orientação definida, uma transformação definida e podia ver qual era o meu definido papel. E assim cada um de nós deverá descobrir que caminho percorrer e qual a especialidade a ter.

Acontece frequentemente que a maioria de nós está disposta a subir até ao altar e verter a nossa devoção. A devoção existe, em diversos graus, na maioria de nós, mas não pode nem deve satisfazer-nos. Se eu fosse ter com a Dr.ª Besant e lhe disesse: “Estou disposto a servi-la em qualquer das minhas capacidades. Estou disposto a sacrificar tudo e o meu único desejo é trabalhar para obter conforto, independência, e por aí fora,” ela diria, “Oh, muito bem; que capacidades trazes contigo. De que modo queres prestar serviço ao Mestre?” A devoção deve ter um escape na actividade física; e desta forma se tivermos de determinar qual o papel que cada um de nós tem de representar, antes de nos oferecermos, devemos descobrir quais as capacidades que temos. Quando para um Teósofo ou um membro da Star ou qualquer outro, o chamamento aparece como “sacrifica tudo e vem ao Mestre,” não é suficiente pedir ao Mestre que aceite somente a nossa devoção; devemos dar-lhe qualquer coisa que lhe permita guiar-nos. Por outras palavras, devemos trazer perante o Mestre certas capacidades e não aparecer apenas de mãos vazias. Se eu puder chegar junto do Mestre e dizer “Eu posso fazer isto ou aquilo, eu posso escrever ou pintar ou compor música ou representar,” Ele dirá: “Muito bem, esse é o teu caminho. Vai e procura, descobre quais são os teus talentos, e logo que os encontres, saberás como sofrer e servir.” Pois existem muito poucos que realmente conseguem dizer, “Eu posso fazer isto; ao longo desta linha reside o meu sacrifício ao serviço do Mestre.” Consideramos que nos sacrificámos quando terminamos sem algo do qual podemos facilmente abrir mão.

Se eu tivesse imaginado algo em particular que o Mestre quisesse realizado, eu tratá-lo-ia de outro modo. E se eu precisasse de riquezas, tê-las-ia acumulado, não para mim, mas para o Mestre, e ao acumula-las, saberia que tinha que me sacrificar, e tinha que suportar enormes sofrimentos e mal-entendidos. Mas é a atitude que conta. Estamos com medo de que as nossas capacidades não nos guiem pelo caminho que nos foi preparado. Assim temos que descobrir antes de servir realmente, de que maneira cada um de nós pode servi-Lo, de que modo podemos oferecer o nosso sacrifício, e ao descobrir qual o nosso caminho deveremos descobrir a qual tipo pertencemos, se ao tipo que vai para o mundo e se desenvolve no mundo, por assim dizer, ou é deixado numa estufa e evolui, como uma planta, igualmente cheio de força. Há pessoas que trabalham no mundo por vários anos, que trabalham e fazem de tudo sem descobrir qual o propósito da vida. Descobrem o seu propósito por acaso, mas acumularam tanto do que o mundo tem para dar que ao entrarem em contacto com as realidades espirituais abrem mão de tudo o que adquiriram, enquanto aqueles que cresceram numa estufa separados do mundo alcançam o objectivo por outro caminho.

Portanto tal não tem importância desde que tenhamos aprendido o que ambas as guerras de identidade podem oferecer, e não até então estarão aptos a servir o mundo. Imaginem apenas uma pessoa que é criada, diga-se, num templo onde é reprimida, onde desenvolve complexos. Assim que essa pessoa sai lá para fora para o mundo, tem a melhor das diversões; e é o mesmo com a pessoa que trabalha cá fora no mundo. Não podemos evoluir ao longo de uma linha definida. Devemos evoluir em todas as direcções e até lá não ajudamos e só atrapalharemos.

Tal como eu conheço o meu próprio caminho, também cada um de nós deverá descobrir o seu caminho e até essa descoberta ser feita não devemos estar prontos ou aptos para servir o Mestre. Aqueles de nós que têm imaginação, que em certo grau têm a capacidade de tomar uma visão impessoal da vida, podem descobrir isto. Mas a maioria de nós não têm o desejo de servir, nem o desejo de alcançar o seu caminho ou objectivo.

O nosso problema é que tal como no mundo exterior, temos os nossos direitos adquiridos. E desde que exista o elemento de egoísmo, não descobriremos o caminho. Cada um de nós quer que o Mestre desça até si; mas o que não aprendemos foi que, mesmo como imaginamos, se Ele descesse das nuvens, seríamos incapazes de O servir, porque não nos equipámos para Lhe prestar serviço.

Devemos descobrir de que maneira podemos servir, e isso implica a completa violação de nós mesmos, das nossas relações, etc. Não é que não tenhamos o desejo, nem a nostalgia que as grandes pessoas têm; mas em nós não é constante. Não existe aquela pressão contínua que nos mantêm a andar, a andar, a andar. Significa verdadeiro sacrifício, significa subjugar-nos em tudo e não deixar o ego (a personalidade, o eu) ficar-se por cima. Então deixaremos de distorcer as coisas para que se encaixem nos nossos preconceitos, mas compreendê-las-emos de um modo total; por outras palavras, tornam-se realmente simples.

Devemos ter a coragem e determinação para desistir; e quando subimos e atingimos uma certa distância, descobrimos o quanto de tolos somos ao lutar pelo que é tão trivial, tão simples. Existem tantos temas com os quais lutamos de uma forma tão complicada; mas se nós apenas nos deixássemos expandir um pouco, todos estes temas se tornavam simples, todas as complicações desapareceriam. Mas requer que nos observemos constantemente, que estejamos atentos para ver se estamos a fazer a coisa certa ou a coisa errada.

Cada um de nós sabe destas coisas de fio a pavio, e mesmo assim se o Mestre chegasse e perguntasse o que cada um de nós soube fazer, de que modo agimos na sua ausência, de que modo cumprimos o nosso papel, quais seriam as nossas respostas? É surpreendente como não conseguimos mudar, como devíamos, tal e qual uma flor. A nossa crença embora forte, não é a crença de um homem que age com uma determinação fixa. Essas são, no entanto, as pessoas que o Mestre quer ao Seu serviço, e não somente aquelas que são apenas devotas, sem que essa devoção as conduza à acção. Se nós conseguirmos pôr de lado a nossa própria evolução, e trabalhar e esquecermo-nos de nós mesmos no trabalho, então seremos verdadeiramente servis e aproximar-nos-emos do Mestre. Pode ser que eu seja jovem, que eu não tenha sofrido como os mais velhos já sofreram, mas se o sofrimento pode desalentar o entusiasmo então mais vale não tê-lo. Mas o que foi que nos ensinou o sofrimento?

Como disse no início, não existe nada tão absorvente como o estudo de nós mesmos. Esse é o único assunto sobre o qual vale a pena pensar; porque significa mudança. Não existe ninguém para forçar os mais velhos, e portanto ficam cristalizados. O que interessa é descobrir o que podemos fazer e até onde nos podemos sacrificar; quanta é a nossa força e quais as nossas capacidades. Quando vemos pessoas numa atitude de reverência, penso frequentemente no que terão feito por via do sacrifício.

Nos anos que estão para vir, ou temos que nos adaptar rapidamente à corrente em mudança, ou sair completamente dela. Quando definitivamente agarrarmos um vislumbre do Plano, por mais passageiro que seja, e sabendo que devemos continuar, simplesmente continuaremos, porque é muito mais divertido do que somente marcar o tempo. O que interessa é termos de fazer qualquer coisa para mudar. A velhice não significa que não podemos mudar. Por outro lado, é mais fácil para os mais velhos, porque eles já tiveram a experiência, e o sofrimento; no entanto continuam do mesmo velho modo de perpétua negligência. Se querem ganhar dinheiro, vão e ganhem milhões, e dêem-nos ao Mestre, e podem fazê-lo se tiverem a atitude correcta. E é o mesmo com tudo o resto que queiram fazer – escrever á maquina, estenografar ou qualquer outra coisa que desejem que seja o vosso serviço para o Mestre. A atitude é o que conta e quando chegarem lá todo o resto se seguirá.


Jiddu Krishnamurti

Quinta-feira, Junho 26, 2008

Eu Sou... Deus

Eu,

Eu sou,

Eu sou Deus.

Estou a ter um aparente acesso de megalomania? “Ei, quem és tu para afirmar uma coisa dessas?”, perguntariam uns quantos de olhos esbugalhados sentidos de que perverti o sentimento de mediocridade imposto sobre todos nós... Mediocridade!! Sim ouviram bem. Repito: MEDIOCRIDADE, MEDÍOCRE. É o sentimento que nos tentam impingir. Tentam nos fazer sentir que somos uma criatura insignificante neste cosmos, que as dimensões do Universo nos reduzem a formigas, escravas da nossa própria racionalidade, que escavam túneis ou abrigos de cimento e madeira, alumínio e terra cota. Coitadas das formigas, que traumas psicológicos não terão em saber da sua pequenez no Universo. E os formigueiros que muitas espécies constróem? Será que elas estão conscientes dos efeitos sobre o mundo natural, que a construção de tais formigueiros acarreta? Da quantidade de solo que usam, da imensa poluição que os seus dejectos provocam, das devastações de plantas, folhas e animais que uma colónia de formigas causa para se manter viva? Estarão elas conscientes dos efeitos que podem provocar a longo prazo se continuarem a funcionarem assim, a agir desse modo? Dividirão elas o mundo em Mundo das Formigas e Mundo Natural? Ou tal divisão não é a nossos olhos perceptível? E se não a vemos quererá dizer que não existe? Ou só existem estes dois mundos porque os pensamos, porque os criamos num momento de insanidade psicológica, e nos deixamos levar pela ideia de tal ideia ser verdade? Será o nosso mundo realmente artificial?

Se somos seres Medíocres? Possivelmente, mas não vou generalizar e chamar medíocre aos outros. Vou só falar de mim. Vou só tomar-me a mim mesmo como exemplo, o único e verdadeiro exemplo que posso evocar, eu mesmo, a minha pessoa, a criatura que sou, ou que tentaram convencer que sou. Não sei onde vou chegar com esta atitude mas tenho que a EXPLORAR... tenho que a examinar, tenho que a observar e contemplar para me desvendar. Não quero partir de preconceitos formado pelos outros, vou partir dos preconceitos formados por mim, se algum realmente existir. Não me tomo por medíocre. Mas observo-me cheio de dificuldades perante o mundo. Não sou um poço de sabedoria, e tenho sérias dúvidas sobre tudo o que me foi ensinado. Como afirmou Descarte, “A minha única certeza é a de duvidar de tudo”, o mais alto grau de cepticismo psicológico. Mas mais uma vez estou a ir de encontro aos preconceitos formulados por outros. Como encaro eu esta afirmação sobre tudo por em dúvida? Será ela verdadeira para mim? Terá sentido tomar esta atitude só por que eu a ouvi falar e de alguma forma me reconhecer com a sua ‘verdade’, o sentido que sinto que nesta frase existe em mim? Que sentido faz para mim esta frase?

Duvidar do que é o amor, duvidar do que é a paixão, duvidar de todos os sentidos que se dão ás palavras, todos os significados. Aqui o silencio ganha por uma larga vantagem. Admitimos certas palavras como fazendo sentido na nossa vida. Temos que Amar. Temos que sentir compaixão pelos outros, pelos seres vivos, pelas plantas, pelo mundo inteiro. Teremos? A linguagem infiltrou-se-nos no pensamento e na forma de agir e não distinguimos uma coisa da outra. Unimos-las num mesmo ramo florido de sentimentos: Palavra, pensamento, acção.

Amor, sexo e paixão. Como se relacionam. O que é instinto aqui? O que é desejo aqui? O que dá prazer aqui? Para quê procurar cada uma destas palavras. Procurar amor. Procurar sexo. Procurar paixão. São estes os nossos guias na vida? A vida que pensamos ter e que pensamos pertencer-nos, é guiada por estas palavras? É nelas que fundamos a nossa existência, a forma como moldamos o nosso pensamento e as nossas acções? Que base é esta para nos fundarmos como seres?

Quem sou eu? Uma criatura medíocre perdida pelo Universo? Ou serei o próprio Deus, criador de universos, criador de vidas? Quem me defino ser?

Abandonarei todas as definições e tentarei partir em busca de uma definição pessoal, só minha? Ou deixo de pensar nas coisas definidas e tentarei encara-las sempre como indefinidas? Ou admito em todas as definições uma margem de indefinição?

Olho para mim e o que vejo? Que tenho tentado apaixonar-me por uma pessoa em particular. Mas qualquer rapariga seria uma pessoa ideal. Afinal é um ser humano, inserida numa sociedade semelhante á minha, e possivelmente tão carente do mesmo tipo de comportamento como eu. Conceitos de beleza acrescentam-se à minha definição de estar apaixonado, ou de inteligência, mais conceitos de saber-se comportar nesta e naquela situação, quando está comigo a jantar, quando saímos juntos com os amigos, e mais conceitos e definições sobre essa pessoa se vão formando à medida que vou criticando o que vejo. Começo a dizer o que gosto e o que não gosto na sua pessoa. E o que gosto começo a apreciar ainda mais e o que não gosto começo a detestar ainda mais. Ela não sou eu, e ao saber o que eu gosto nela, sorri, e ao saber o que não gosto nela, recolhe-se, e disfarça a sua forma de ser para evitar desanimar-me. E eu... faço exactamente o mesmo. Disfarçamos quem somos para nos agradarmos mutuamente. Fingimos ser o que não somos para sermos aceites.

Onde já vi eu este filme?

E depois, se nos aguentamos com este jogo por alguns anos, outros há que basta alguns meses, dizemos que aquela é a pessoa com quem devemos viver, devemos casar, devemos criar uma família. E neste fingimento de quem somos ou, de o que somos, acabamos por esquecer que isto é um jogo. Fingimos regras, simulamos comportamentos para nos suportar-mos mutuamente. E quando criamos uma família transportamos todo este fingimento, que em momentos se solidão, em momentos em que apenas nos temos que suportar a nós mesmos, sentimos que não estamos bem, que a experiência que temos criado não vai de encontro com o que sentimos. Que quando estou sozinho surgem desejos, surgem memórias de segurança adquirida no passado que não se adaptam ao presente, aquele momento de estarmos só no universo, e essa solidão não faz sentido, não se adequa com a normalidade de se ser feliz em sociedade e no mundo social . Somos os geradores dos nossos próprios conflitos e depois procuramos a origem. Esta PESSOA já não serve. O amor que existia fracassou. Não me entendo, já não sei quem sou e isolo-me. Reflicto. Sei que estou em busca de algo mas apercebo-me que não é do amor que me venderam. Imitar as formas de amor não é amar. Temos que descobrir esse amar não por imitação, não nos guiando pela autoridade das pessoas que pensamos serem felizes, mas guiando-nos por cada acção que tomamos. Estando atentos ao que fazemos com os outros e a nós mesmos, observando este fazer constante em que mergulhamos aprendemos a conhecer-nos, não como uma tábua rasa, em que esculpimos o que queremos ser, mas como a superfície de um lago que se agita para acomodar um pato que amara, um barco que passa, um balde que nos rouba a água. Que ao calor do sol se evapora, e que com o cair da chuva se renova.